Arquivo para março \27\UTC 2011

Quando eu tiver uma filha, talvez seu nome seja Maria Cecília

“Ceci
era o nome que o índio dava à sua senhora, depois que lhe tinham ensinado que ela se chamava Cecília.
Um dia a menina ouvindo chamar-se assim por ele, e achando um pretexto para zangar-se contra o escravo humilde que obedecia ao seu menor gesto, repreendeu-o com aspereza:
– Por que me chamas tu Ceci?
O índio sorriu tristemente.
– Não sabes dizer Cecília?
Peri pronunciou claramente o nome da moça com todas as sílabas; isto era tanto mais admirável quanto a sua língua não conhecia quatro letras, das quais uma era L.
– Mas então, disse a menina com alguma curiosidade, se tu sabes o meu nome, por que não o dizes sempre?
– Porque Ceci é o nome que Peri tem dentro da alma.
– Ah! é um nome de tua língua?
– Sim.
– O que quer dizer?
– O que Peri sente.
– Mas em português?
– Senhora não deve saber.
A menina bateu com a ponta do pé no chão e fez um gesto de impaciência.
Dom Antônio passava; Cecília correu ao seu encontro:
– Meu pai, dize-me o que significa Ceci nesse língua selvagem que falais.
– Ceci? … disse o fidalgo procurando lembrar-se. Sim! É um verbo que siginifica doer, magoar.
A menina sentiu um remorso; reconheceu a sua ingratidão; e lembrando-se do que devia ao selvagem e da maneira por que o tratava, achou-se má, egoísta e cruel.
– Que doce palavra! disse ela a seu pai; parece um canto de pássaro.
Desde este dia foi boa para Peri; pouco a pouco perdeu o susto; começou a compreender essa alma inculta; viu nele um escravo, depois um amigo fiel e dedicado.
– Chama-me Ceci, dizia às vezes ao índio sorrindo-se; este doce nome que me lembrará que fui má para ti; e me ensinará a ser boa.”

In: O Guarani, José de Alencar